Bateria BESS pega fogo?
Pode pegar, e é por isso que a bateria de empresa é projetada como instalação de risco. O incêndio numa bateria de lítio passa pela fuga térmica, uma reação em que a célula aquece, produz o próprio calor, libera gás inflamável e pode passar o calor às vizinhas. O que leva a célula até ali pode ser defeito dela, mas também falha elétrica, de controle ou de montagem no resto do sistema. O projeto existe para detectar cedo, desligar sozinho e impedir que a falha de uma célula vire a do conjunto.
O risco caiu com a escala. O EPRI, instituto de pesquisa do setor elétrico americano, mantém uma base mundial de falhas em baterias de grande porte e registrou queda de 97% na taxa de falha entre 2018 e 2023. A mesma base contraria a ideia de que a célula é a causa principal: a maior parte das falhas veio do resto do sistema e do controle, e não da célula.
Por isso a segurança de uma bateria não se compra só no equipamento. Ela depende de onde o sistema fica, de como foi ligado e de quem acompanha a operação depois da entrega.
Que normas valem para BESS no Brasil?
No Brasil, o projeto de BESS segue as normas internacionais do setor e as exigências do Corpo de Bombeiros do estado para a edificação. A ABNT estuda a segurança contra incêndio em baterias numa comissão própria, criada em 2023.
As referências que o comprador vai encontrar no projeto e na documentação do fornecedor:
- IEC 62933-5-2. Requisitos de segurança para sistemas de armazenamento eletroquímico ligados à rede. A segunda edição saiu em dezembro de 2025.
- NFPA 855. A norma americana de instalação de armazenamento estacionário, hoje na edição 2026. Trata de tamanho e afastamento da instalação, detecção, supressão, controle de explosão, exaustão e detecção de gás.
- UL 9540. A certificação de segurança do sistema de armazenamento como produto.
- UL 9540A. O método de ensaio que mostra como a fuga térmica se propaga e como o fogo se comporta no equipamento. É o relatório que o projeto usa para definir o afastamento e a proteção daquele modelo.

Onde instalar a bateria na empresa
A bateria de porte industrial fica, em geral, num contêiner ou gabinete próprio do lado de fora do galpão, perto da entrada de energia. Assim um incidente no equipamento fica longe da produção, das pessoas e do material combustível da fábrica.
O local sai do projeto, a partir do ensaio do modelo e da norma aplicada: o afastamento das paredes, das outras baterias e das rotas de saída, o acesso livre para o caminhão do bombeiro, a base que aguenta o peso e drena água, e a distância do que pode pegar fogo junto. Bateria posta onde sobrou espaço, sem esse estudo, é o risco de quem compra só o equipamento.
O que o projeto de proteção entrega
O projeto de proteção faz quatro coisas: percebe o problema antes do fogo, desliga a bateria sozinho, impede que o gás se acumule e contém a falha onde ela começou. Junto, a empresa recebe o plano de resposta, que diz o que a brigada e o bombeiro fazem se o alarme tocar.
Na bateria que acompanhamos numa indústria, o projeto seguiu a série IEC 62933. A fumaça é indicada rack a rack, o alarme de fumaça ou de fogo para o inversor, e a refrigeração é líquida, com um circuito por rack, para manter a temperatura das células.
A telemetria lê a temperatura de cada rack a cada minuto. Num dia de julho de 2026, a célula mais quente chegou perto de 36 °C. Em 15 dias de leitura, a maior subida de temperatura em 10 minutos foi de 6 °C, e o alerta térmico da telemetria não disparou nenhuma vez. É com esse histórico que o alerta de fuga térmica da telemetria fica calibrado: sensível o bastante para avisar cedo, sem disparar com a operação normal.
O que exigir do fornecedor de BESS
O comprador pede ao fornecedor a prova de que o modelo foi ensaiado e o projeto da instalação no local, e não só a ficha do equipamento. Com esses documentos, o seguro, o Corpo de Bombeiros e a engenharia da própria empresa conseguem avaliar o risco.
- Relatório do ensaio UL 9540A do modelo ofertado, e a certificação UL 9540 ou IEC 62933-5-2 do sistema.
- Projeto de implantação com afastamentos, acesso, base e drenagem, assinado por engenheiro com ART.
- Detecção e desligamento descritos: o que dispara o alarme, o que desliga a bateria e em quanto tempo.
- Monitoramento depois da entrega, com alarme remoto de temperatura, fumaça e gás, e quem responde ao alarme.
- Plano de emergência para a brigada da empresa e para o Corpo de Bombeiros, com o contato de quem conhece o sistema.
Projetamos, instalamos e acompanhamos a bateria, da engenharia à telemetria. O que entra num sistema e como ele é instalado está em armazenamento de energia para empresas, e a nossa engenharia elétrica assina o projeto.
Fontes
- EPRI, Insights from EPRI's Battery Energy Storage Systems (BESS) Failure Incident Database (white paper) · maio de 2024
- NFPA 855, Standard for the Installation of Stationary Energy Storage Systems, edição 2026 (página do ICC) · edição 2026
- UL Solutions, Understanding UL 9540A and NFPA 855 · consulta de 07/10/2026
- IEC 62933-5-2:2025, Safety requirements for grid-integrated EES systems, Electrochemical-based systems (VDE Verlag) · edição 2.0, 09/12/2025
- Canal Solar, ABNT realizará estudos para aumentar a segurança contra incêndio em baterias · 2023
