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Demanda contratada: como calcular e quando a bateria reduz a conta

A demanda contratada é a potência que a empresa reserva com a distribuidora e paga todo mês. Como ela é cobrada, como escolher o valor certo e quando uma bateria derruba essa parte da conta, com o que nossa telemetria mede numa fábrica em operação.

Por Ícaro Abitante, Sócio da ConecctaPublicado em

O que é demanda contratada?

Demanda contratada é a potência, em quilowatts (kW), que a empresa do grupo A reserva com a distribuidora e que fica disponível o tempo todo no ponto de conexão. Ela é paga todo mês, mesmo quando a fábrica usa menos. A definição está na Resolução Normativa 1.000 da ANEEL, a regra de fornecimento de energia no Brasil.

Ela vale para quem é atendido em média ou alta tensão: indústria, hospital, shopping, frigorífico. A conta do grupo A tem duas partes que andam separadas. A energia, em kWh, mede quanto a fábrica consumiu no mês. A demanda, em kW, mede a maior potência que ela puxou de uma vez. Uma empresa pode consumir pouco e pagar caro de demanda, se liga muita carga ao mesmo tempo.

A demanda na conta: medida, contratada e faturada

A distribuidora mede a potência média de cada intervalo de 15 minutos do mês. O maior desses intervalos é a demanda medida. Na conta, a empresa paga a maior entre a demanda medida e a contratada.

Isso cria dois erros possíveis, e os dois custam:

  • Contratar demais. A fábrica contrata 600 kW e nunca passa de 450 kW. Paga 600 kW todo mês, sem usar 150 kW.
  • Contratar de menos. A fábrica contrata 400 kW e registra 480 kW. Paga os 480 kW e ainda a ultrapassagem, que é a parte mais cara.

A modalidade tarifária muda a forma de contratar. Na tarifa verde a empresa contrata um valor único de demanda, que vale para o dia inteiro. Na tarifa azul ela contrata dois valores, um para o horário de ponta e outro para fora dele, e a demanda de ponta é a mais cara. O horário de ponta e o preço de cada um dependem da distribuidora; a tabela atualizada por distribuidora está no guia de tarifa de ponta.

Pela regra da ANEEL, o valor contratado em cada posto é único durante o contrato. Quem tem sazonalidade reconhecida ou é rural pode contratar por cronograma mensal.

Ultrapassagem: 5% de tolerância e cobrança em dobro

A ultrapassagem só é cobrada quando a demanda medida passa da contratada em mais de 5%. Passou disso, o excedente inteiro é cobrado em dobro, além do valor normal da demanda medida.

Um exemplo com números redondos. Uma fábrica com 500 kW contratados pode registrar até 525 kW sem ultrapassagem. Se registrar 540 kW, paga os 540 kW na tarifa normal e paga de novo os 40 kW excedentes, agora a duas vezes a tarifa de demanda. Na tarifa azul a conta é feita separada para a ponta e para fora da ponta.

Um único intervalo de 15 minutos acima do limite basta. A partida de um compressor junto com um forno, num dia de produção cheia, define a demanda do mês inteiro.

Tela do Energy BRAIN com a análise de uma fatura do grupo A: a ultrapassagem de demanda na ponta, o excedente de energia reativa e as oportunidades de economia.
A análise da fatura aponta a ultrapassagem de demanda na ponta e o excedente de reativo, com o impacto de cada um por mês.

Como calcular a demanda contratada certa?

O valor certo sai do histórico medido, e não da soma da potência das máquinas. Com 12 meses de demanda medida, a empresa enxerga o pico de cada mês, separa o que é recorrente do que foi um evento isolado e contrata perto do pico que se repete, deixando os 5% de tolerância para o imprevisto.

Na prática, o cálculo segue quatro passos:

  1. Juntar 12 meses de conta. A fatura traz a demanda medida e a contratada de cada mês. Na tarifa azul, as duas aparecem para ponta e fora de ponta.
  2. Pedir a memória de massa. É o registro de 15 em 15 minutos do medidor, que a distribuidora fornece. Mostra a que horas cada pico aconteceu e o que estava ligado.
  3. Separar pico recorrente de pico evitável. Pico que se repete todo mês é a operação normal. Pico isolado, como uma partida simultânea de motores, costuma ter solução na operação, sem pagar demanda o ano todo por ele.
  4. Olhar para frente. Máquina nova, turno extra ou ampliação mudam o número. Aumentar a demanda depende de a rede da distribuidora comportar, e às vezes de obra.

O diagnóstico da conta é esse estudo feito pela engenharia, com a curva de carga e a modalidade tarifária juntos. Fazemos essa leitura no diagnóstico energético antes de propor qualquer equipamento.

Tela do Energy BRAIN com a memória de massa de um ano: o consumo hora a hora, a faixa tarifária de cada hora e a demanda máxima na ponta e fora dela.
A memória de massa lida pelo Energy BRAIN: o consumo hora a hora do ano e a demanda máxima de cada posto.

Prazos para reduzir ou aumentar a demanda

Reduzir a demanda contratada exige aviso prévio à distribuidora: 90 dias para quem é atendido de 2,3 kV a 25 kV (o subgrupo A4) ou por rede subterrânea (AS), e 180 dias para os demais. A regra só permite uma redução a cada 12 meses, fora os casos de eficiência energética que ela mesma prevê.

Por isso a redução se planeja com o histórico na mão, e não depois de uma conta alta. Quem reduz demais e passa a ultrapassar volta a pagar em dobro, e só pode reduzir de novo um ano depois.

O aumento segue outro caminho. A empresa pede, a distribuidora avalia se a rede comporta e responde no prazo do orçamento de conexão, com a obra que for necessária. A demanda mínima para contratar no grupo A é de 30 kW em pelo menos um posto tarifário.

Quando a bateria reduz a conta?

A bateria reduz a conta quando corta o que a fábrica puxa da rede no horário mais caro. Na tarifa azul, ela baixa a demanda de ponta, que é a parcela de demanda mais cara, e permite contratar menos nesse posto. Nas duas modalidades, ela troca energia da ponta por energia carregada fora dela, quando o kWh custa menos.

A telemetria de uma fábrica que acompanhamos, com bateria de 2 MWh e 1 MW, mostra o que decide se isso vira dinheiro. A bateria tem de cobrir o horário caro até o fim. Num dia de julho de 2026, às 18h, com a bateria descarregando, a fábrica quase não puxou energia da rede. Perto das 19h45 a bateria acabou, e nos intervalos de 15 minutos seguintes a fábrica voltou a puxar perto de 800 kW. Como a conta pega o maior intervalo, o das 18h não reduz nada se o das 20h ficar alto.

No começo do mesmo mês, a bateria entregou cerca de 2 MWh numa noite, acabou antes de a carga da fábrica baixar, e o último intervalo registrou cerca de 810 kW. A demanda daquele dia caiu perto de 20 kW. O mesmo cuidado vale para a recarga: num dia em que a bateria recarregou da rede às 16h, a fábrica chegou a puxar cerca de 1.100 kW na média da hora, mais do que sem bateria. A correção dos dois casos é de configuração: distribuir a energia da bateria pelo horário caro inteiro e recarregar sem criar um pico novo.

Há um segundo efeito que a telemetria mostrou. Quando a bateria zera a potência ativa, o reativo das máquinas continua passando pelo medidor, e o fator de potência daquela hora cai. Na mesma fábrica, ele ficou abaixo de 0,1 às 18h. Sem correção do reativo, parte da economia volta como cobrança de excedente de reativo. Por isso o projeto da bateria olha o fator de potência junto, como na análise de qualidade de energia.

Como a bateria corta o pico, passo a passo, está no guia de peak shaving. O que projetamos, instalamos e operamos está em armazenamento de energia para empresas.

Fontes

  1. ANEEL, Resolução Normativa nº 1.000/2021, texto compilado (arts. 2º, 148, 152, 154, 155, 294 e 301) · consulta de 07/10/2026, com alterações até a REN 1.150/2026

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre demanda contratada e demanda medida?

A contratada é a potência que a empresa reserva com a distribuidora e paga todo mês. A medida é a maior média de 15 minutos registrada no mês. Na conta do grupo A entra a maior das duas.

Qual é a tolerância de ultrapassagem da demanda contratada?

É de 5% sobre a demanda contratada de consumo. Passou disso, o excedente inteiro é cobrado a duas vezes a tarifa de demanda, além da demanda medida faturada normalmente. Na tarifa azul, a conta é feita para a ponta e para fora da ponta.

Qual é a demanda mínima para contratar no grupo A?

São 30 kW em pelo menos um posto tarifário, pela regra da ANEEL. O consumidor especial, que compra energia incentivada no mercado livre, tem mínimo de 500 kW.

Onde ver a demanda contratada na conta de energia?

A fatura do grupo A traz a demanda contratada e a demanda medida do mês, em kW. Na tarifa azul aparecem as duas para a ponta e para fora da ponta. O valor também está no contrato assinado com a distribuidora.

Energia solar reduz a demanda contratada?

Raramente. A usina gera de dia e o horário de ponta fica no fim da tarde, quando o sol já baixou. Uma nuvem que passa no pico da fábrica também deixa aquele intervalo de 15 minutos com a carga inteira na rede. Quem baixa a demanda de forma previsível é a bateria que cobre a ponta inteira.

Avaliação técnica da sua conta de energia

Envie as contas dos últimos 12 meses ou o histórico de consumo e, se houver, a memória de massa e o contrato de demanda. Nossa engenharia lê a curva de carga e responde com o caminho que faz sentido para a sua operação.